Por dias tenho lutado contra o silencio que ensurdece meu coração. Tenho tentado esquecer, mas o meu coração (que um dia será de mãe) não deixa.
O meu peito sangra diante das palavras que me faltaram e da dor que me absorveu desde o dia 27 de Janeiro de 2013. Essa data marcou eternamente nossas vidas!
Lutei por não escrever pois criei esse blog para transmitir alegrias e trocar experiencias. Mas diante da trágica coincidência (o fato dele ter ficado pronto nesse mesmo dia), não posso deixar de falar, ou melhor, escrever sobre a tristeza que certamente passou a fazer parte de nossas vidas.
Vi a cada instante um fato novo, o numero de mortos só aumentava.
Comecei a ver fotos de familiares, desesperados, confusos, chocados. O bem mais precioso daquelas pessoas, daquelas mães, foi retirado de seu convívio de maneira brutal, sem chance de um ultimo abraço, um ultimo beijo.
Mães que, em alguns casos tiveram sua dor multiplicada pela perda de mais de um filho, viram diante de seus olhos vermelhos e inchados de chorar aquele rostinho, que um dia tanto sonharam ver ao sair de seu ventre, aquele rosto que ainda de olhinhos fechados, reconhecia sua voz, rosto que expressou o primeiro sorriso (tão festejado), rosto que traziam tantas expressões. Diante dos olhos daquela mãe que um dia se alegrou ao vê-lo, havia apenas um rosto, sem sorrisos, sem expressões, sem vida.
Como descrever a dor dessa mãe?! Uma dor que vem do mais profundo de sua alma, passa pelo ventre que o gerou, aperto o peito que eternamente o amará e transbordará em forma de lagrimas, de gritos ou de silencio?! Apenas elas são capazes de sentir essa dor, dor que não se descreve, dor que não se cala, dor que não para.
A chuva que cai pode levar as homenagens postas em frente a boate, pode lavar as ruas,regar os jardins, aliviar o calor, mas não aliviará a dor e nem lavará a alma dessa cidade devastada por uma tragédia.
Vi em um site um poema feito por um cronista e poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, achei pertinente compartilhar pois esse poema diz o que não conseguimos dizer.
A maior tragédia de nossas vidas
Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu?
Morri na Rua dos Andradas 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.
A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul.
Nunca uma nuvem foi tão nefasta.
Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha,
avulsa, página arrancada de um mapa.
A fumaça corrompeu o céu para sempre.
O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.
As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.
Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.
Morri porque já entrei em boate pensando em como sairia dali em caso de incêndio.
Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.
Morri porque já confundi a porta de banheiro com porta de emergência.
Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.
Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.
Morri sufocado pelo excesso de morte; como acordar de novo?
O prédio não aterrissou de manhã, como um avião desgovernado na pista.
A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.
Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço.
Não vão se lembrar de nada.
Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.
Mais de duzentos jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.
Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.
As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.
Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.
As palavras perderam o sentido
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